• ROGÉRIO TORRES NUNES

A aposta da Disney na pulseira mágica de US $ 1 bilhão | Parte 3 - Projetando a Experiência



Uma ilustração dos passes, cartões, e mapas que o sistema substitui.

Foto: KENT PHILLIPS

A Disney sempre blinda em segredo seu processo criativo. Isso é parte da estratégia e da cultura da empresa: ou seja, não quer sua magia contaminada pela crua realidade por trás das cortinas. Isso é particularmente verdadeiro para as MagicBands. No inicio, foram necessárias dezenas de entrevistas com executivos, designers e engenheiros da Disney, que trabalharam no projeto, mas só puderam falar anônimamente devido a acordos de confidencialidade.

Embora atualmente, a equipe por trás dessa plataforma em expansão tenha incorporado mais de 1.000 pessoas, a idéia inicial começou anos atrás, com um punhado de especialistas do núcleo duro. Por diversão passaram a chama-los de “Fab Five - Os Cinco Fabulosos” - uma referência quase sacrilégica aos personagens da Disney: Mickey, Minnie, Donald, Pateta e Pluto. Em 2008, Meg Crofton, então presidente da Walt Disney World Resort, disse-lhes para erradicar todo o atrito na experiência do parque Disney World. "Estávamos à procura dos gargalos", diz ela. "Quais barreiras impedem de partilhar a experiência mais rápido?" Os “Five Fab” não eram apenas sonhadores “Imagineers”, mas os semideuses da diversão que criaram as atrações do parque Disney. Colaborando com eles estavam os veteranos de alto nível da divisão de operações - executivos intimamente familiarizados com o desafiante gerenciamento do parque - desde flagrar usuários tentando fraudar o sistema de reserva, ou certificar-se de que pais achassem suas crianças perdidas.

O trabalho cotidiano dos “Five Fab”, abriram os horizontes para o futuro da Disney. "Eles propuseram uma estrutura do Magic Kingdom sem catracas", diz Crofton. E acrescenta, houve um "efeito dominó a partir da tomada de uma decisão. Tudo estava amarrado junto.” Ninguém sabia disso melhor do que John Padgett. Ele foi o mais empenhado defensor do projeto, e seu nome aparece em primeiro e em mais de uma dúzia de patentes relacionadas com o MyMagicPlus. Dentro da empresa, essa cascata de novas tecnologias, e o sonho de reformar o parque, emocionou alguns e ameaçou outros, que se afligiam com a enorme complexidade de tudo aquilo.

Os “Fab Five” se inspiraram particularmente no então nascente mercado de tecnologias vestíveis “wearables*”. As possibilidades pareciam quase infinitas. Ficaram especialmente intrigados com a Nike SportBand, uma predecessora da FuelBand, que sincronizava um monitor de freqüência cardíaca e um pedômetro colocado no sapato, exibindo os dados em um mostrador montado no pulso. A Nike a usou em eventos virtuais como a “Human Race”, uma corrida global virtual de 10K, que utilizou dados de pedômetros nos corredores. E se a Disney fizesse algo parecido com isso, pensaram os “Fab Five”. E se a pulseira fosse uma chave que abrisse tudo na Disney World?

* O termo “computação vestível” ou "tecnologia vestível" se refere a uma nova abordagem de computação, redefinindo a interação humano-máquina, onde os gadgets estão diretamente conectados com usuário, em termos gerais, o usuário estaria “vestindo seu gadget”

Juntaram peças numa replica Frankenstein, usando peças de reposição de catálogos de hardware e de dispositivos desmontados. A equipe debateu se os visitantes iriam inaugurar a experiência com uma pulseira, um cordão, ou até mesmo um chapéu de Mickey Mouse. A visão deles finalmente começou ganhar contornos fora da bancada de trabalho nos primeiros meses de 2010, num teatro desativado, que já havia sediado o Mouseketeers Live Show. "Este laboratório tornou-se a vitrine de demostração da “visão", diz Nick Franklin, que juntamente com Crofton, supervisionou a equipe. "Tornou-se um modelo para as equipes de desenvolvimento."

Os “Fab Five” estavam instalados em uma área do parque projetada para evocar um estúdio “cenário”. O prédio em si parecia um pouco como uma sala de cinema de uma cidadezinha da década de 1950, completada com um letreiro enquadrado em luzes brilhantes. A fachada tinha janelas amplas e escurecidas, parecendo que o local estava desativado. Os bancos da frente ofereciam um lugar tranquilo onde pais apressados podiam descansar por um momento, e zangar com crianças birrentas: pensar, viajamos de tão longe para chegar até aqui e vamos nos divertir!

Escondidos numa antessala atrás do vidro, ao alcance da voz desses visitantes desavisados, cerca de 30 designers e engenheiros dispostos em mesas improvisadas, altamente estressados e, ocasionalmente, de ressaca de uma noite passada afogando suas frustrações. "Foram semanas e semanas de dias longos e viagens à Orlando", diz um consultor que trabalhou no projeto. "Ao final do dia, a única coisa a fazer era a bebida com a equipe." As famílias distraídas passando errantes ofereciam uma das poucas diversões frente ao esgotante horário de trabalho .

Nos estágios iniciais, o quarto que compartilhavam era irritantemente frio, pois não podiam desligar o AC. Todos suspeitavam que era parte do mesmo sistema de resfriamento dos convidados do Toy Story Midway Mania ao lado. E mexer com o termostato era o mesmo que enviar a galinha dos ovos de ouro para o matadouro. Então, para compensar, os funcionários da Disney ofereciam montanhas de suéteres, cobertores e luvas das lojas de presentes do parque. Apesar destas condições, o trabalho avançou. Varias camadas da MyMagicPlus - as MagicBands e seus leitores, juntamente com partes do portal web, para fazer reservas de excursões - já funcionavam. As próprias pulseiras já haviam sido projetadas, assim como os quiosques que se iluminavam com um agradável carrilhão a qualquer momento que se tentasse passar.

Isso só já envolvia uma enorme proeza, a principal delas, o projeto da MagicBand, que arrancou lágrimas dos designers, garantindo que iriam caber em quase todos os pulsos do planeta. A pulseira parece ser simples e na medida certa: um painel central colorido rodeado por uma borda cinza-claro. Se a pulseira fosse destinada a uma criança, os pais simplesmente descascavam a borda externa cinza. Já os adultos as usavam como são, intactas. "Tivemos modelos que iam desde o que chamamos de pulso “Shaq” ao de uma criança, e tudo o mais", diz outro designer. A Disney foi inflexível no design da pulseira, reforçando dois valores fundamentais: Todos são iguais e todos são bem vindos no parque.

Levou seis meses para um engenheiro desenvolver a forma correta de abertura: Tinha de ser fácil de abrir, mas não poderia se partir inadvertidamente. Enquanto isso, os leitores tinham de ser intuitivos o suficiente para as pessoas saberem como usá-los instantaneamente.

O projeto tem um conceito novo e inteligente: Basta tocar o ícone do Mickey na pulseira sobre o do leitor. Quando tudo funciona, o leitor pisca verde e emite um tom agradável; se algo der errado, brilha em azul, mas nunca em vermelho. Luzes vermelhas são proibidas na Disney, que sugerem algo de ruim ocorrendo. Nada de ruim pode acontecer na Disney World.

Para além da antessala, num ambiente de portas duplas, havia um palco sonoro com uma demostração em grande escala da remodelada experiência Disney World.

Era um espaço cavernoso cobrindo 743 metros quadrados, com pé-direito de 15 metros. Por volta de 2012, foi dividido em uma dúzia de "salas", usando enormes cortinas pretas que pendiam do teto. Cada quarto representava uma fase na viagem de um visitante, a partir da sala onde a família poderia reservar on-line seus passeios, desde o ônibus de traslado para o hotel, até as linhas do Space Mountain, além do sistema futurista de reserva de restaurantes que inventaram. "Estávamos usando as interfaces e tecnologias que acabariam por ser implantadas", diz Franklin. Esta foi uma versão de raio-x da experiência da Disney World, vista diretamente nas entranhas da infra-estrutura comercial do parque.

Todas essas vinhetas foram uma forma de convencer o Conselho de Administração da Disney a aceitar o custo de implantação do sistema no total de US$ 1 bilhão. O ensaio geral funcionou. Pessoas como CEO Bob Iger e o membro do conselho da Pixar John Lasseter, que era novo na Disney e a caminho de reinventar seu estúdio de animação, foram conduzidas em um turnê de duas horas que ocorreu segundo um meticuloso e refinado roteiro. Eles adoraram. O que se seguiu foram dois anos de trabalho de desenvolvimento para transpor um protótipo para o desempenho no mundo real, em seguida, mais 18 meses para implantá-lo no parque. O estúdio se tornou um campo de treinamento para os funcionários da Disney, que são chamados membros do elenco.

Atualmente, o palco já foi desmontado. Há poucas fotos que documentam o que aconteceu por lá, devido ao sigilo do projeto e à diretiva da Disney de nunca mostrar a bagunça por trás da magia. No verão de 2013, quando houve o primeiro teste público das MagicBands, elas iriam mudar quase todos os detalhes meticulosamente planejados da coreografia que governava a Disney World.


Dentro “Be Our Guest”, o restaurante onde a comida consegue encontrar você, sem você ter que pedir.

Foto: MATT STROSHANE/DISNEY

Fonte: Wired

Continua na próxima edição


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